Notas Explicativas

Canto XXXII

32.1 O cortejo pára diante de uma grande árvore. Para alguns comentaristas, a árvore representa o império romano, por analogia ao império de Nabucodonosor, cujo sonho é interpretado pelo profeta Daniel:

(...) eu estava olhando, e vi uma árvore no meio da terra, cuja altura era grande. Crescia a árvore, e se fazia forte, de maneira que a sua altura chegava até o céu, e era visível até os confins da terra. A sua folhagem era formosa, e o seu fruto abundante, e havia nela o sustento para todos; debaixo dela os animais do campo achavam sombra, as aves do céu faziam morada nos seus ramos, e todos os seres viventes se mantinham dela." (Daniel 4:10-12, trad. João Ferreira de Almeida)

A árvore também é a árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2:16-17) e representa Adão (a humanidade), após a expulsão do Paraíso. Assim como o reino de Nabucodonosor, a humanidade se espalhou pelos confins da terra, mas perdeu o direito à vida eterna e não tem vida no Paraíso (por isso a árvore está sem folhas e sem frutos). Voltar

32.2 O tronco da árvore é doce aos lábios, mas amarga no estômago. Compare com Apocalipse 10:9-10: "Fui, pois, ao anjo, e pedi-lhe que me desse o livrinho. Disse-me ele: Toma-o, e come-o. Ele fará amargo o teu estômago, mas na tua boca será doce como mel." Voltar

32.3 O grifo leva o timão ao pé da árvore, "devolvendo a ela o que era dela": Se a árvore é a humanidade (Adão), e o grifo é Cristo, o timão da carruagem (a Igreja) é a cruz. A cruz simboliza a paixão e morte de Cristo. Através dela, a humanidade (a árvore) recebe de volta a vida eterna que havia perdido (a árvore floresce, na ressurreição). A cor violeta é a mesma cor usada pelas ninfas que representam as quatro virtudes, sem as quais não é possível usar corretamente o conhecimento do bem e do mal. Voltar

32.4 Cercada pelas sete ninfas (as sete virtudes), Beatriz prevê que Dante irá para o Céu, com ela (a Roma onde Cristo é romano). Depois, pede a Dante que ele anote tudo o que for revelado, em benefício do mundo perdido (da mesma forma como Jesus pede a João que escreva as revelações do Apocalipse - veja Ap. 1:11). Voltar

32.5 A águia simboliza o poder imperial. Ela aparece causando destruição, rasgando os frutos e folhas da árvore e depois atingindo a carruagem. Representa as perseguições sofridas pelo cristianismo nos primeiros anos da Igreja, entre os governos de Nero (54 d.C.) e Diocleciano (314 d.C.). O navio é um símbolo tradicional da Igreja [Musa 95]. A água danifica não só a carruagem (a Igreja) mas também o império romano (Roma) [Sayers 55]. Voltar

32.6 A raposa simboliza as heresias que assolavam a Igreja primitiva, especialmente as seitas gnósticas como a de Dolcino (veja Inferno, canto XXVIII) [Musa 95]. Voltar

32.7 A águia volta e causa danos na estrutura do carro, mas não atinge a árvore. A imagem representa a doação de Constantino, primeiro imperador cristão, que deu à Igreja riquezas e poder (as penas douradas), levando-a a corromper-se (causando danos à sua estrutura) [Longfellow 67]. Voltar

32.8 O dragão é o símbolo tradicional do Diabo e do anti-Cristo. A maior parte dos comentaristas concorda que esta revelação simboliza o surgimento do islamismo, considerado uma cisma que dividiu o cristianismo, levando parte de seus fiéis. Sua imagem talvez tenha origem em Apocalipse 12:3-4 onde é descrita a visão de "um grande dragão vermelho", cuja cauda "levou após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra" [Sayers 55]. Voltar

32.9 As plumas que nascem sobre o carro representam a multiplicação das riquezas mundanas possuídas pela Igreja, que talvez tenham sido doadas (pelos fiéis) com a mais pura das intenções. As plumas cobrem toda a estrutura do carro, e levam ao surgimento das cabeças. Voltar

32.10 As cabeças que brotam do timão e dos quatro cantos do carro (a Igreja) o transformam na besta do Apocalipse: "E eu vi subir do mar uma besta que tinha dez chifres, e sete cabeças" (Apocalipse 13:1). As cabeças representam, tradicionalmente, os sete pecados capitais. As três que têm dois chifres são o orgulho, a inveja e a ira, que causam dano à alma que os pratica e também aos outros. As outras quatro que têm apenas um chifre representam a preguiça, a avareza, a gula e a luxúria que só causam dano ao pecador [Pinheiro 60]. Voltar

32.11 A prostituta representa a figura do papa, que se prostitui com o gigante ciumento, que representa a França. A prostituta inicialmente tem boas relações com o gigante (A França e Bonifácio VIII foram aliados, tendo participado do golpe que expulsou os guelfos brancos de Florença). Talvez o olhar lascivo que a prostituta lançou sobre Dante represente a discussão que Dante teve com o papa quando era prior de Florença. O papa Bonifácio morreu pouco depois de ser brutalmente espancado pelos homens de Felipe IV, o rei da França. Com a eleição de Clemente V, Felipe conseguiu levar a sede da Igreja para longe de Roma (para Avignon, na França). Voltar